Esta idéia da cegonha pode até ser romântica, mas não tem me feito pensar tanto quanto a ‘sementinha do papai encontrou a sementinha da mamãe’ e saímos eu, você e toda a humanidade desta nem sempre perfeita conjunção. Isto aconteceu há quase 30 semanas e, se pode não ser perfeito, ao menos parece aos meus olhos. Era verão ainda. Hoje faz frio lá fora, minha barriga cresce mais do que eu pensei ser possível e não é sempre agradável a experiência. Ainda assim, eu não trocava ela por nada!
Doem as costas com todo o peso projetado para a frente – e que ainda aumentará nestes dois meses e meio que faltam. Eu já não tenho a agilidade que tinha há apenas meio ano, coisas simples como cortar as unhas do pé se tornam tarefas cansativas e laboriosas. O cansaço vem com muita frequencia e ficar sentada é a tarefa mais dolorosa do dia. Dormir? Bem, talvez esta seja a beleza de todo o processo: quem sabe eu já não durmo direito me preparando para o que vem pela frente – noites insones e dias idem, alimentando e cuidando de um serzinho que precisa comer a cada duas horas!
‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena’, já dizia Fernando Pessoa. E tudo vale a pena para sentir esta coisinha mexendo aqui dentro. É um sentimento diferente e, se dá para explicar, também é impossível saber se o outro vai entender. Os movimentos não são controlados. Eles acontecem na hora que o bebê decide. Pode ser no meio de uma reunião de trabalho. No ônibus. Em pé, na fila do banco. Ou no silêncio e calma de nossa casa, com a mão do papai sentindo. Nenhum é mais mágico que o outro e é sempre divertido. Pode ser doloroso também. E não tão estético assim, quando a barriga ganha formas estranhas abrindo espaço para o bebê se mexer e crescer.
Falando em estética, o cabelo ganha brilhos, os olhos também, que se refletem em você, iluminando-a de uma beleza e serenidade que dizem ser ‘cara de mãe’. Será que mãe tem cara? Tem forma, redonda, de uma beleza plástica que exala o orgulho pela barriga que cresce e se movimenta. É um momento único, que vejo como meu, ou seu, ou mesmo nosso – onde o nosso significa dois: eu e meu marido. A família participa de longe, os amigos também, e é ótimo que seja assim. Ousados, decidimos um caminho cansativo, de sermos pais de primeira viagem sozinhos, sem o apoio da família e destes amigos por perto. Queremos conhecer este novo integrante de nossas vidas, que carregará nosso sobrenome e nosso sangue, aprendendo, com ele, os pequenos segredos de sua existência.
Helena Artmann, Calgary, AB, Fev/2007
Sunday, July 8, 2007
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